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Quantas pessoas você conhece que fizeram um simples parto normal? No Brasil, cada vez mais as gestantes optam por dois extremos: um parto super humanizado ou cesárias eletivas. Onde há sintomas, há complicações. A sociedade não sabe definir de onde vem o tal “medo do parto” que muito se relaciona com um conceito de “violência obstétrica” deturpado pelo senso comum. É nesse contexto que a série de documentários “O Renascimento do Parto” evidencia tal violência e a problemática da “epidemia de cesáreas” no Brasil.

A violência obstétrica consiste em uma violação dos direitos humanos vivenciada por inúmeras mulheres brasileiras, em dados preocupantes, especialmente durante o período da gravidez, do parto e do puerpério. O fenômeno, ainda que muito presente no país, não é tipificado pela legislação brasileira, diferentemente do que ocorre na Venezuela e na Argentina, onde a violência obstétrica é entendida como crime contra a mulher – acrescenta-se, porém, que homens transsexuais também podem passar por tal violência quando gestantes. Tendo em vista as tipificações elaboradas pelos dois países citados, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo entendeu que a violência obstétrica é caracterizada “pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres”.

Diversas condutas médicas e institucionais estão inclusas no que se considera violência obstétrica e, devido à falta de debate em torno do assunto, muitas delas não são compreendidas como violência pelas próprias vítimas. O termo abarca situações variadas: bloqueio do contato entre a mãe e o bebê logo após o parto, proibição da entrada de acompanhante na sala de parto, comentários constrangedores e ofensivos à gestante/puérpera e sua família motivados por diferentes razões (cor, escolaridade, número de filhos, orientação sexual, estado conjugal, situação de cárcere e entre outros), agendamento de cesárea sem embasamento científico para tal ou realização da cirurgia sem consentimento, procedimentos que causem dor ou dano físico desnecessário e/ou por conveniência médica (como o uso indiscriminado de soro de ocitocina e a realização descabida de episiotomia) e muitos outros comportamentos.

Infelizmente, a prática da violência obstétrica é tratada com superficialidade pelas instituições e não é compreendida por muitos como a questão preocupante que é no que tange a saúde pública, principalmente para evitar constrangimento à comunidade médica – grande parte dela, inclusive, não aceita a expressão “violência obstétrica”, entendendo sua utilização como um ataque aos profissionais da saúde.

É no sentido de sublinhar a relevância da temática que foi produzida a trilogia brasileira independente de filmes-documentários chamada “O Renascimento do Parto”, disponível no catálogo da Netflix. As longas-metragens foram dirigidas por Eduardo Chauvet e produzidas por Érica de Paula, de quem a ideia de criação do documentário surgiu, em vista da sua experiência e atuação como doula, profissional especializada em assistência de partos. Para os filmes, diversas mulheres mães foram entrevistadas, assim como especialistas – um exemplo é Michael Odent, cientista e obstetra, que participou do primeiro documentário destacando o valor do “hormônio do amor” e do contato inicial entre a mãe e o bebê. Chauvet chegou a declarar para a Papo de Cinema que sofreu muito durante o processo de montagem cinematográfica, considerando as angústias e as tristezas com as quais se deparou no caminho, e que o roteiro foi alterado diversas vezes, mas ressalta a necessidade do cinema em abordar temáticas de importância social, por mais dolorosas que sejam: “Não quero falar de flores, mas utilizar meu trabalho para contribuir com temas relevantes, através de informação de qualidade, com uma linguagem criativa e instigante”.

A primeira das produções, emocionantes e reflexivas, dá visibilidade especial ao número exorbitante de cesarianas realizadas anualmente no Brasil. De acordo com o Portal G1, o país só perde para a República Dominicana em quantidade de partos cesárea, com aproximadamente 55% das gestantes sendo submetidas a cirurgia – cerca de 85% na rede privada –, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que apenas entre 10% e 15% dos casos exigem, de fato, o procedimento por necessidades médicas. Percebe-se que, no geral, é feita a recomendação de cesáreas para as gestantes, mesmo em casos em que não há necessidade – a cirurgia, afinal, é mais rápida e menos trabalhosa para a equipe médica, ainda que mais arriscada à mulher, e exige menor preocupação em relação ao importante contato inicial entre a mãe e o recém-nascido. Além disso, é frequente a alegação de “medo da dor” por parte das grávidas, na maioria das vezes decorrente de relatos de violência sofrida por quem passou pelo parto normal, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS). “Todas essas cicatrizes são muito profundas e vão muito além do corte na barriga (ou no períneo)”, ressaltou Érica de Paula, idealizadora de “O Renascimento do Parto”, para a Revista Trip.

Outra situação comum diz a respeito das gestantes que desejam passar pelo parto normal, mas acabam desistindo durante a gestação após a recomendação de cesárea em razão de alguns mitos comumente difundidos, como “cordão umbilical enrolado no pescoço do feto”, “bacia estreita” e “placenta envelhecida”. O que se compreende a partir da epidemia de cesáreas é que o parto deixou de ser visto como uma situação natural do corpo humano feminino e, por vezes, trans masculino para se tornar, nas últimas décadas, um fenômeno medicalizado – o comando do parto não é mais tomado pela parturiente, mas pelos profissionais da saúde. Em resumo, o corpo humano não é considerado suficiente e capaz para a operação do parto: ele seria defeituoso e, por isso, a intervenção médica se mostraria inescusável. “Se a mulher quer uma cesariana, ela será prontamente atendida. Mas se ela quer um parto normal (e pesquisas indicam que a grande maioria das brasileiras desejam um parto normal no início da gestação) ela precisam lutar ferrenhamente contra o sistema e praticamente se formar em obstetrícia para conseguir se desviar de tantos mitos que envolvem o assunto”, acrescentou Érica.

Considerando o panorama elucidado, os documentários reivindicam a retomada do protagonismo por parte das gestantes no que envolve o parto e a mudança da crítica situação obstétrica brasileira. Isso pode ser feito principalmente pela informação sobre o que constitui a violência obstétrica – destaca-se aqui os abusos que não são associados à violência em um primeiro momento –, a medicalização do parto e a realização excessiva de cesarianas e intervenções traumáticas e/ou dispensáveis no Brasil, além da promoção da ideia do parto natural humanizado. Apesar desses esforços, o país continua em posição retrógrada no assunto e não se mostra aberto a mudar tão rapidamente tanto em relação ao reconhecimento da violência obstétrica, que gera tanto sofrimento físico e psicológico a inúmeras mulheres brasileiras, como problema dramático do sistema quanto à redução da realização de partos por cesariana sem necessidades médicas e à conscientização relativa a seus riscos.

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