Diante do momento em que vivemos, é inevitável que ocorram mudanças na estrutura da política e da sociedade. O que preocupa, porém, é que esse caminho obscuro de polarização e ataques institucionais desperte em cada um de nós um “quê” de insensibilidade quanto a assuntos que realmente importam para manter a democracia como um dos pilares da sociedade. A partir daí, nada mais poderá ser feito.
MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES, LUÍS DE CAMÕES
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
Mudança é a palavra perfeita para começar. Até agora, mais de 125 mil brasileiros foram mortos pelo coronavírus. O que faremos?
É evidente a transformação de paradigmas políticos e o aumento do conflito de ideologias no Brasil. Esse movimento não é recente e teve suas bases firmadas antes mesmo das eleições presidenciais de 2018. Contudo, desde o início do ano, esse problema se agravou a partir do aumento da hostilidade dos governantes com relação às mídias e ao papel investigativo realizado por elas. Um levantamento do Repórteres sem fronteiras feito com 180 países confirma isso: na Classificação Mundial da Liberdade de Imprensa, que analisa a liberdade de manifestação das mídias, o Brasil ocupa a 107ª posição, fato que é, no mínimo, assustador.
Como consequência dessa visão negativa, os meios de comunicação de massa perderam credibilidade aos olhos do povo, passando a ser meros coadjuvantes na denúncia de vícios do sistema político e, principalmente, na construção do jogo democrático como um todo.
Não por acaso, é importante dizer, essa perda de protagonismo ocorre em um momento de fragilidade da população, que, devido à pandemia do novo coronavírus, não tem encontrado meios favoráveis para fiscalizar os atos do poder público como deveria. E, como era de se esperar, alguns indivíduos se aproveitam desse momento de vulnerabilidade e suposta inércia para passar a boiada.
Mas, afinal, o que justifica esse incessante combate contra a busca dos fatos e da verdade? Não seria papel fundamental das mídias fornecer informações ao povo, principalmente em circunstâncias sombrias como essa? E não é dever dos políticos manter transparentes suas ações para que todos tenham fácil acesso?
Perguntas difíceis, respostas difíceis. Ao menos no complexo contexto sociopolítico brasileiro.
Na tentativa de respondê-las, adianto-lhes que ataques a jornalistas representam não apenas uma reiterada e proposital tentativa de desestimular o acesso à informação, mas também um risco à incipiente democracia nacional. É inconcebível que, pouco tempo após completarmos 30 anos da redemocratização no Brasil, já convivamos novamente com tentativas de restrição da liberdade de jornalistas e outras personalidades famosas, como Marcelo Adnet, criticado pela Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) no Twitter após fazer críticas a Mario Frias, secretário especial da cultura, nos mostra que o projeto de repressão alcançou novos patamares. E a situação tende a piorar.
Olhando pelo lado positivo, ao menos conseguimos ultrapassar a marca de três décadas supostamente contínuas de soberania popular no Brasil. Para nossos padrões, é um recorde! Comemoremos.

Para além disso, ouso a dizer que nosso país é periodicamente tomado por ondas de déspotas esclarecidos fantasiados de “políticos da nova geração”, que nos trazem de volta as tendências opressivas e negacionistas de que lutamos tanto para nos desvencilhar. Ignorando a ciência e tomando decisões importantes à vida da sociedade pelo mais puro casuísmo, é essa política do despotismo que elimina garantias e comete sérias violações de direitos há muito adquiridos, pelo desejo de “simplificar” e despolitizar o ordenamento para um suposto bem comum.
Para o estabelecimento desse “novo normal”, baseado na desvalorização de instituições democráticas e na apatia com relação à vida dos outros (em especial a das populações menos favorecidas), informações potencialmente prejudiciais são ocultadas da sociedade. Dessa forma, é comum que sejam fabricadas “cortinas de fumaça” – escândalos de grande repercussão que desviam a atenção pública para questões políticas laterais, evitando as verdadeiras polêmicas.
A estruturação dessa rede organizada de ataques à imprensa – seja por parte de políticos influentes ou por seus fiéis eleitores – ainda contribui para construir a figura do inimigo comum (neste caso, a mídia), que, por denunciar os erros de quem está no comando, é considerada a principal causadora das discórdias e da instabilidade que hoje vivemos.
Exemplos de atitudes desrespeitosas, é claro, não nos faltam. A frase “tenho vontade de encher a tua boca de porrada”, dita por Jair Bolsonaro quando perguntado sobre os 89 mil reais depositados na conta de Michelle Bolsonaro por Fabrício Queiroz é um bom indicador de que o comportamento agressivo dos políticos com relação à imprensa agora encontra respaldo nos mais altos cargos políticos.
Enquanto isso durar, estaremos vulneráveis aos desmandos daqueles que negam a história, desvalorizam nosso povo e são contrários a mudanças, sendo, por isso mesmo, tão avessos à manutenção de nossos direitos e liberdades individuais mais básicos.
Sinceramente, não sei se o poema de Camões no início do texto é realmente digno do período de mudanças que vivemos. Digo isso porque, desse momento de incertezas, não guardaremos muitas lembranças boas ou saudades, apenas pesar pelos que se foram, expectativas sobre o fim dos problemas e esperança por dias melhores.
Contudo, a realidade, por mais dura que seja, é somente nossa.
